terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Política da Existência (Pela redução imediata da jornada de trabalho)
Há mais ou menos cem anos os trabalhadores conquistaram o direito a 8 horas de trabalho. Há mais ou menos cem anos depois está conquista esta obsoleta, porém tão normatizada que poucos contestam as horas que a sociedade exige de trabalho. Se aceitarmos e relevarmos os avanços técnicos e sociais que supostamente adquirimos nesse meio tempo, devemos nos perguntar porque todos esses longos anos de história não culminaram, para nós, em uma significante melhora e qualidade de vida.
Os dias são curtos, os prazos opressores, o relógio parece mais rápido do que nunca. Indicios que os dias estão ficando pequeno para nós, que as 24 horas de rotação da Terra tem sido insuficientes pra contemplar todos os anseios exigidos pelo nosso modo de vida. De lá pra cá as cidades cresceram, as distâncias aumentaram, e os sistemas de transporte não parecem corresponder as exigências da vida comteporanea. A cidade faz com que se tenha que percorrer grandes distâncias, se possível num curto espaço de tempo. Hoje devemos considerar que as 8 horas de trabalho exigem mais ou menos 10 horas do dia. Considerando que devemos dormir idealmente 8 horas, nos sobram apenas 6 horas do dia para viver. Todavia, estas 6 horas devem também contemplar outros compromissos e responsabilidades que não o trabalho.
Um dos objetivos ideologicos de Marx designados sobre a responsabilidade do avanço técnico consiste em libertar o trabalhador do trabalho. "As máquinas farão o trabalho alienado por nós", é uma das objetividades que visa o comunismo. Todavia, a luta dos trabalhadores contra o trabalho (mecanismo biopolitco de opressão) deve ser uma luta permanente, visando sempre a melhoria da qualidade de vida do trabalhador. Todavia, as lutas da esquerda não são apenas lutas por uma classe, as conquistas que este campo político obtém acabam por fim beneficiando toda a sociedade. Afinal, os direitistas de hoje se servem daquilo que era contra os direitistas de ontem, direitos trabalhistas, férias, plano de saúde, carteira assinada...
Digo isso para não ideologizar o debate. As polarizações entre esquerda e direita existem e devém ser mantidas, todavia acredito que temos bandeiras políticas que extrapolam estas categorias e são de interesse sobretudo da sociedade cívil. Quem não gostaria de trabalhar um pouco menos, ter mais tempo para lazer, recreação, e aperfeiçoamento individual? Afinal, quem não gostaria de dispor de mais tempo de vida livre? Penso que garantimos para si condições mais libertárias de existência só tende a contribuir em todos os aspectos da nossa sociedade. Penso que devemos retomar uma luta para garantir mais tempo de vida e de vivência. Não basta existir.
Se foi possível reduzir a carga de trabalho de 14, 16 horas por vezes, para 8 horas há mais ou menos cem anos, não me parece nem um pouco utópico exigimos redução da jornada de trabalho para 6 horas pelo menos. O que esta em jogo é nossa condição humana. Se em todo esse meio tempo os avançamos que obtemos em todas as esferas sociais não culminam em melhora de vida algo esta errado, alguns poucos novamente estão ganhando com isso. Se progredimos, então exigimos a nossa fatia do progresso. Progresso seria neste caso mais horas de namoro, de rede, de ócio, de lazer, de passeio, brincando com o cachorro ou com os filhos.
Pensar o trabalho nos serve como metáfora histórica do desenvolvimento. Embora "evoluimos" tecnicamente, trabalhamos como o homem de cem anos atrás. Embora no século XXI conservamos a fome enquanto realidade social quase que universal e primitiva. A civilização com todos seus avanços se mostra incapaz de garantir duas necessidades básicas da humanidade: o direito de existir e o direito de vivenciar. Torna-se assim incapaz de satisfazer igualitariamente velhos anseios humanos, um relacionado a saúde do corpo outro a saúde do espirito.
Se a história demonstra que não podemos conferir fé a capacidade da nossa civilização de atender anseios básicos e universais, cabe nos perguntar, para onde caminhamos, então? Porque simplesmente nos submetemos a modos de vida que não nos servem, nem enquanto ser individual ou coletivo? Estamos cada vez mais presos e vampirizados por um sistema que exige uma alta produtividade sem oferecer melhoras na qualidade de vida. Esta alta produtividade não proporciona um mundo melhor, apenas garantem os anseios daquela minoria excessivamente rica que necessita e absorve grande parte do excedente produzido no mercado. Os trabalhadores continuam alienados nesse sentido, o seu trabalho não lhes possibilita melhora de vida.
Os avanços na tecnologia de produção só permitem maior enriquecimento em menos tempo e com menos mão-de-obra. A tecnologia esta a serviço exclusivo dos capitalistas, e portanto é necessário reivindica-la. Se é possível produzir o mesmo tanto em menos tempo e com menos mão-de-obra, então significa que é possível reduzir a jornada de trabalho, e tudo isso sem mexer no lucro do capitalista. É necessário convertermos a técnica que possibilita menos gastos e maiores lucros aos capitalistas, em tempo livre para os trabalhadores.
Aprendemos novamente com os índios. Dizem que os índios tem repulsa ao trabalho, e com razão. Na verdade todos temos, e se pudéssemos não trabalhar ou trabalhar menos o faríamos. Mas a verdade não é que os índios são preguiçosos, mas sim que trabalham apenas o quanto precisam, e fazem o possível para não precisar muito. Eles trabalham para si e por isso trabalham pouco, nós trabalhamos para uma minoria que detém maior poder de consumo, e que sendo proprietária do meio de produção não trabalha. O fascínio dos índios com a técnica dos brancos é compreensível neste sentido. De tudo que os europeus forneciam, eles se interessavam sobretudo pelos acessórios corporais, espelhos, e metais forjados. Os acessórios corporais lhe permitiam expandir o embelezamento estético da vida, o espelho lhes permitia constatar essa expansão. Jà os machados e facões por exemplo, lhes permitiam fazer as mesmas coisas com maior eficiência. Estes objetos lhe permitiam trabalhar mais rápido. A madeira necessária que era cortada em 4 horas de trabalho, passa a ser cortada em 2. Ou seja, ganha-se 2 horas a mais do dia para dar atenção aos filhos, conversar, ou ficar na rede.
É uma depredação da vida ver a nossa juventude ja tão cedo dedicada ao cárcere das 8 horas de trabalho. Uma das minhas angústias da minha vida em relação a este mundo refere-se a isto. Amo demais minha vida para dedicar todo esse tempo para a produção de excedentes econômicos. Me nego a me adaptar passivamente a esta lógica grotesca.
E ainda falam do meu cigarro. "Cada cigarro que você fuma corresponde a menos 5 minutos de vida." Pois então, e quantos cigarros meus correspondem as horas de trabalho? A diferença que quando estou fumando estou fazendo por escolha, e ao fazer não julgo perdendo tempo de vida. Atribuo um sentido positivo no meu ato de fumar, mas não vejo sentido positivo em ter que trabalhar 8 horas por dia.
É necessário discutirmos um âmbito da política ainda pouco explorado: a política da existência. Penso neste ambito da politica como um campo que tem por foco discutir a nossa saúde social, o quanto a nossa sociedade permite e fornece condições para sermos seres saudáveis socialmente. Remédio pra não dormir, remédio pra dormir, remédio pra ficar ativo, remédio pra desativar, anti-depressivos, remédios anti-strees. O alto consumo dessas drogas indica o quanto nosso modo de vida esta dessincronizado com nosso metabolismo. As doenças psicológicas que se alastram em toda parte neste século são sintomas sobretudo do câncer capitalista a qual todos estamos envolvidos. Vende-se um modo de vida saudável que é impossivel de atingir socialmente. De forma que os atletas da beira mar na sua busca por saúde me fazem contestar em que medidas todo monoxido de carbono respirado dos carros não contrapõe a prática da corridinha ao fim de tarde.
Exigimos avanços na política da existência. Dedicar maior tempo as pessoas que a gente ama, aos lugares que a gente gosta, as coisas que fazemos por prazer. Descobri empiricamente que um sálario de 20.000 reais por mês não me faz mais feliz em absoluto, se para isto eu tiver que dedicar 8 horas diárias da minha vida. Hoje tenho a clareza que definitivamente dinheiro não me traz felicidade. 20.000 reais para mim não pagam o tempo de vida que abdiquei. Ir pra praia naquele dia lindo por vezes compensa mais. O dinheiro garante a sobrevivência do corpo, o bem estar da matéria, nada mais. O dinheiro garante a sobrevivência. Mas viver não é sobreviver. Viver não é a qualidade dos moribundos.
O trabalho garante algo essencial as economias modernas: o excedente. E como economias modernas, as propostas socialistas e capitalistas não divergem sobre este ponto. A legitimidade moderna do "homo faber" é reivindicada tanto por comunistas quanto por capitalistas. Ambos reivindicam o industrialismo e a produção de excedentes. Termino contestando em que medidas uma esquerda é libertária quando compreende na proletarização universal um mecanismo de libertação e não de opressão. Um regime em prol dos trabalhadores só deve visar a libertação dos trabalhadores do trabalho. Pergunte aos trabalhadores quantos deles trabalham por prazer, quantos deles não queriam dispor de mais tempo livre? O trabalho é um mecanismo de opressão a favor do excedente e da domesticação da vida. A nossa sociedade hoje é um grande campo de trabalho forçados.
Tal e qual diluem-se a distinção entre vida pública e privada. O trabalho invade o campo da pessoalidade individual. Agora mesmo fora do trabalho você continua trabalhando. Sua conduta deve ser vigiada. Você não deve mais representar o que você é. Porque você agora é a própria imagem da sua empresa. 24 horas. Mas não recebe por todas essas horas de serviços. Nem ao menos cobra direito autoral pelo uso de sua imagem.
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